Psicanálise nas ruas: fios que tecem uma história

 



Quais são os fios que tecem uma história? Quantas mãos são necessárias para dar a ela consistência, materialidade?


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O percurso teórico de Sigmund Freud foi marcado, desde os primórdios, por seu interesse pelo campo social. Em Moral Sexual “Civilizada” e a doença nervosa moderna (1908), questiona-se acerca do aumento das doenças nervosas na modernidade, oferecendo uma interpretação original para esse fenômeno. Em sua perspectiva, tal crescimento estaria relacionado à constituição de uma moral sexual restritiva e restrita, que subordinava a sexualidade à finalidade reprodutiva, de modo a impor sua repressão. A partir dessa leitura, formula a distinção entre as neuroses atuais e as psiconeuroses, situando-as como constitutivas do campo das doenças nervosas da modernidade.

Anos depois, já em 1930, propõe em O mal-estar na civilização uma outra leitura acerca do mal-estar, articulando-o à oposição entre pulsão de vida e pulsão de morte. Nesse contexto, Freud sustenta que o mal-estar é inerente à civilização, uma vez que é efeito do conflito entre as exigências da vida coletiva e as tendências pulsionais do sujeito. A retomada desses dois momentos, situados no início e no final do seu percurso teórico, permite evidenciar que o enlace com o social permeia a sua obra de modo contínuo. Ainda que por vias distintas, Freud sustenta elaborações acerca da modernidade, da civilização e de suas relações com a produção do mal-estar.

No entanto, no terceiro volume da biografia de Freud, Ernest Jones (1953-1957) defende que os escritos freudianos voltados à crítica das formações culturais e sociais não teriam relevância para o campo teórico psicanalítico. Segundo Jones, tais formulações tratavam-se de opiniões pessoais do psicanalista, de modo que não produziriam avanços teóricos, conceituais ou clínicos para a psicanálise. Essa leitura levou muitos psicanalistas a considerar tais incursões nos registros sociais e culturais desprovidas de legitimidade e consistência teórica, consolidando uma vertente do movimento psicanalítico que busca restringir a psicanálise ao espaço da clínica fechada em um consultório e esvaziar a dimensão política da obra freudiana. 

Essa posição indica uma faceta da história da psicanálise. Como toda história, ela é marcada por descontinuidades e rupturas, de modo que o que circula como hegemônico aponta para determinadas linhas de força. As linhas de fuga, contudo, permitem vislumbrar outras narrativas possíveis, indicando que a história do movimento psicanalítico não é unívoca. Nessa direção, o resgate histórico realizado por Elizabeth Ann Danto, em As Clínicas Públicas de Freud: Psicanálise e Justiça Social (2019), e por Florent Gabarron-Garcia, em Uma História da Psicanálise Popular (2023), evidencia a aproximação entre a teoria psicanalítica e as questões sociais a partir do legado histórico deixado pelas clínicas públicas de Freud, responsáveis por expandir a prática psicanalítica para os serviços públicos e o território vivo das cidades. 

Tal expansão tem início com o discurso proferido por Freud em 1918, no 5º Congresso Psicanalítico Internacional, quando convoca seus colegas a ampliar o acesso à clínica psicanalítica, por meio da criação de instituições ou clínicas ambulatoriais em que o tratamento fosse gratuito. A partir desse momento, psicanalistas se envolveram na criação de ao menos doze clínicas entre 1920 e 1938, em diferentes cidades da Europa, tornando a psicanálise acessível para aqueles e aquelas que não podiam pagar pelo tratamento. É importante destacar que a democratização do acesso não se dava em uma perspectiva filantrópica, mas de responsabilização e obrigação social e coletiva dos psicanalistas no surgimento de democracias com novas configurações, em diálogo com os programas de bem-estar social recém implementados na Alemanha e na Áustria.

As chamadas free clinics chegaram ao fim em 12 de março de 1938, quando as tropas alemãs marcharam em Viena levantando a bandeira da conquista nazista. Frente ao projeto de substituição da psicanálise freudiana por uma psicologia “alternativa e cívica” (Danto, 2019, p.381), muitos psicanalistas fogem para outros países, de modo que a história passa a ganhar novos contornos. Nesse sentido, a recepção da psicanálise no Brasil se deu de formas distintas de acordo com cada região do país. 

Algumas cidades do sul e sudeste, como Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo, foram marcadas pela presença da International Psychoanalytic Association (IPA), através da centralização da formação de psicanalistas, apontando para um determinado modo de pensar a clínica. No entanto, se há uma história que se consolidou de maneira mais visível, há também outras experiências que se desenrolavam simultaneamente. Se essas são as linhas de força que organizam determinado modo de transmissão e legitimação da psicanálise no país, outras linhas se traçam e se sobrepõem a elas, produzindo deslocamentos e aberturas. 

Ainda na década de 1970, Jorge Broide inicia, de forma inaugural, o atendimento às pessoas em situação de rua na cidade de Osasco, São Paulo. Em 1973, Hélio Pellegrino e Anna Kemper fundam a Clínica Social de Psicanálise, configurando-se como um marco nesse período. Aberta para atendimento gratuito, constitui-se como um lugar possível para realizar o acolhimento de pessoas perseguidas pela ditadura militar. 

Entretanto, essas não são as únicas formas pelas quais se dá o movimento psicanalítico no Brasil. Em Salvador, por exemplo, sua circulação e transmissão assumem outros contornos, marcados por diferentes condições políticas, institucionais e culturais. Destaca-se a relevância do curso de psicologia para a difusão da psicanálise, a criação do Círculo Psicanalítico da Bahia e a forte influência de psicanalistas argentinos que se exilaram aqui, fugindo do cenário repressivo da Ditadura Militar na Argentina. Em contexto político semelhante, uma vez que os dois países se encontravam sob regimes ditatoriais, os psicanalistas propunham uma cisão com o modelo de formação rígido proposto pela IPA. 

Nessa esteira, é crucial relembrar que a primeira tradução do clássico Peles Negras, Máscaras Brancas, escrito pelo psiquiatra Frantz Fanon, foi realizada por Jairo Gerbase, em 1983, período anterior à abertura política e à possibilidade de eleição direta de nossos representantes. Em um contexto de silenciamento e impedimento de circulação da palavra, a tradução de Fanon não deixa de produzir efeitos sobre o modo de pensar a clínica, aproximando a psicanálise das questões sociais e raciais. É também nesse período que surgem iniciativas de cuidado voltadas para as pessoas em situação de rua. Destacamos a criação do CETAD, que surge como uma via alternativa para o cuidado aos usuários de substâncias psicoativas. Diante da crescente visibilidade do uso de substâncias entre crianças e adolescentes na rua, expandem suas ações para o território vivo da cidade, consolidando as práticas na rua. Tantas outras surgem em seguida, como o Consultório na Rua, o Ponto de Cidadania, o Corra pro Abraço, os coletivos Bahia pela Paz. 

Nesse sentido, o surgimento de práticas com pessoas em situação de rua, a inclusão de teóricos que investigam os efeitos do colonialismo e do racismo, bem como o diálogo da psicanálise com outros campos de saber, compõem o tecido de uma história em constante transformação. Embora a psicanálise não atribua ao território estatuto conceitual, o trabalho com pessoas em situação de rua evidencia a sua centralidade: é a partir da inserção nos espaços públicos que se torna possível a instauração de um dispositivo clínico que aponta para a produção de vida, através da criação de um espaço de fala e de endereçamento. É, então, nesse espaço entre – entre a exclusão e a invenção, entre violências e possibilidades – que a psicanálise pode se situar, intervindo através da escuta do modo singular com que cada sujeito se relaciona com o território.

Do século XIX ao XXI, a rua aparece, na história de Salvador, como espaço ambíguo: por um lado, como lugar de trabalho, circulação e produção de vida, sobretudo para as populações negras, por outro, como campo de vigilância, repressão e violência. Hoje, tal ambiguidade se reinscreve na experiência de pessoas que vivem em situação de rua, para quem a permanência nos espaços públicos se produz através de sociabilidades e estratégias de sobrevivência. É na estrutura sólida sob a qual pisamos, corremos ou nos dirigimos aos espaços fechados que há vidas que pulsam a céu aberto, laços que se constroem, se desfazem e se refazem. 

Milton Santos, geógrafo baiano, nos lembra que cada lugar é, à sua maneira, o mundo – ao mesmo tempo em que, cada lugar, “irrecusavelmente imerso numa comunhão com o mundo, torna-se exponencialmente diferente dos demais” (Santos, 1996/2023, p. 314). Para o nosso conterrâneo, território é uma construção que se produz a partir de cada sujeito, como um quadro de vida em constante transformação. Nessa direção, escutar alguém na rua não passa pela transposição do setting clássico, numa tentativa de adaptar o divã às praças públicas. Antes de tudo, trabalhamos na rua e com a rua. Escutamos como se dá a relação do sujeito com a cidade, de que forma ele habita os espaços, onde se ancora. Quais são os fios que os amarram à vida?

É, portanto, a partir dessa escuta do sujeito em sua relação com o território que se sustentam as duas apostas que orientam a clínica na rua. Por um lado, supomos que há inconsciente para reconhecer que na rua há sujeito. Sendo assim, a ética que sustenta a clínica está em atender onde a vida pulsa – embaixo dos viadutos, sob as marquises abandonadas ou caminhando pela cidade. Por outro lado, apostamos na oferta de escuta a fim de provocar uma possibilidade de endereçamento, passível de produzir laço. Por isso somos nós quem nos deslocamos para o território e sustentamos uma presença em ato, para que o sujeito possa, no seu tempo, da sua forma, narrar a sua história, construí-la, retificá-la. A palavra, tal como agulha e linha, permite um tecer da própria história. É, portanto, pela palavra que apostamos na reconstituição do tecido da vida, tomando a fala como instrumento de costura que, pelas bordas, franjas, passagens e brechas, permite à vida escapar e desviar.

O resgate do que compõe os fios do movimento psicanalítico em Salvador nos possibilita tecer uma história que é feita por muitas mãos. O legado que Freud deixou a partir da descoberta do inconsciente, ao meu ver, nos permite encontrar pontos de sustentação nas práticas localizadas em seus mais variados contextos, sejam eles enquadrados por paredes, seja a céu aberto. Nessa direção, ao propor a inscrição da psicanálise como um direito assegurado pelo Estado diante das demandas provenientes das neuroses de guerra, Freud enfatiza que a ética psicanalítica deveria ser mantida com o mesmo rigor que orienta seus fundamentos clínicos. Reconhece, portanto, que diferentes formas de sofrimento exigem manejos distintos, sem que isso implique renúncia aos fundamentos que sustentam a psicanálise. 




Referências


Aires, S. Silenciamento, emudecimento e palavra por'vir. In: Aires, S; Azenha, C.; Leite, N. (Org.). Sob Tempestade: segregação e palavra por'vir. Campinas: Mercado de Letras, v. 1, p. 363-374, 2025


Birman, J. Guerra e política em Psicanálise. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2024.


Danto, E.A. As clínicas públicas de Freud: Psicanálise e Justiça Social. São Paulo: Editora Perspectiva, 2019.


Foucault, M. A ordem do discurso: aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. Tradução: Laura Fraga de Almeida Sampaio. 24 ed. São Paulo: Loyola, 2014.


Freud, S. Moral sexual “civilizada” e doença nervosa moderna (1908). In: Freud, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. 9. Rio de Janeiro: Imago, 1996.


Freud, S. Mal-estar na civilização (1930). In: Freud, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. 21. Rio de Janeiro: Imago, 1996.


Gabarron-Garcia, F. Uma história da psicanálise popular. Trad: Célia Euvaldo. São Paulo: Ubu Editora, 2023.


Jones, E. The life and work of Sigmund Freud. 3 vols. New York: Basic Books, 1953-1957.


Santos, M. A natureza do espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2023.


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